RUA DAS PEDRAS

Eu me chamava Maria,
quando vim a Búzios pela primeira vez
Apaixonada pela aldeia resolvi aqui ficar e nunca mais ir embora.
Apaixonada, sempre, comecei a fazer doces e mais doces.
Apaixonada, ainda, montei um café que se chamou Maré Mansa durante mais de trinta anos.
Meu nome ainda é Maria na memória dos muitos amigos que aqui fiz..
Agora meu café se chama Maria, Maria e fica ao lado de um mar cheio de barquinhos, assim como era antigamente, quando aqui cheguei.
Meu neto Rodrigo está lá.
Lá se pode ficar sem pressa, com o olhar perdido no mar e o pensamento longe
Lá, durante o dia, o sol se derrama dourando o terraço e as gargalhadas das gaivotas trazem uma alegria festeira que envolve todo o espaço.
Lá, à noite, a lua se debruça solene sobre as mesinhas de mármore branco que cintilam prateadas como estranhas estrelas redondas.
Assim é o Maria, Maria Café: um pedacinho charmoso que restou da aldeia que se perdeu no tempo..
Tributo a Maria
TRIBUTO A MARIA SOBRAL
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Maria, Maria!
Maria da Maré Mansa, Mansa amiga que se foi.
Devia estar bem cansada, Dessa vida amargurada,
Desse mundo assim tão triste, Cheio de gente malvada.

Búzios tá tão mudada! Basta olhar de madrugada!

Maria morava aqui, E aqui no encontramos,
Num dia já tão antigo, Que lembrar já não consigo,
Nem posso contar os anos, Em que felizes vivemos:
Brincando feito criança, Numa “poça” de alegria,
Maria e a Maré Mansa, Eu com a minha Galeria.

Búzios era divida! Deserta, calma, menina.

Conversas sem meio e sem fim, Por noites e noites adentro,
A gente falava assim, Entre risos e tristezas,
Entre dúvidas e certezas, Amor era nosso tema,
Nossa amizade, um poema, Nosso tempo, uma festa,
Em nossa cuca pequena, A vida valia a pena.

Nada era assim como agora. Viver era bom, sim Senhora!

Agora você cansou. Agora você foi-se embora.
Deixou comigo a lembrança, De outro tempo, de outra hora
Da tua linda figura Na rua das Pedras passando:
Um desfile de elegância, De charme e de simpatia,
Cara limpa, sem pintura, Beleza pura, Maria!

Búzios perdeu seu jeito: Tem mais um furo no peito.

Compreendo teu cansaço. Já não há porque lutar…
Segue em paz, querida amiga, Elegante como sempre,
Deslizando feito cisne, Em seu caminho de água.
Solene, morena, alta, Desfilando sem saber.
E cá prá nós, minha amiga, Este mundo
Não merecia você.

Búzios tá diferente… Já não é terra da gente.

Adeus Maria, Maria, Não se esqueça de mandar
O seu endereço novo, Onde eu vou te encontrar,
Outra vez, noutro lugar, Noutro tempo, noutro mar.
Continuo sua amiga E sempre vou te buscar.

Abigail Vasthi Schlemm